Exercitar a mente evita doenças decorrentes do envelhecimento do cérebro

Quando as cortinas descem e o espetáculo acaba, a atriz que interpreta a "velhinha fofoqueira" se dirige ao público e agradece com o seu lema:

– Velha de doer, mas feliz da vida de viver.

Depois da peça, a intérprete se transforma na dona de casa Maria Josephina Coenen Bertels, 87 anos, que segue à risca o ensinamento. Integrante do grupo Sesi Maturidade Ativa de Porto Alegre, ela faz do teatro parte do que chama de sua "nova vida". Zepha, como é conhecida, não para um minuto.

Além de ensaiar, ainda tem tempo para jogar câmbio (vôlei adaptado à terceira idade), cuida da casa praticamente sozinha, planeja as próximas viagens e, agora, aprende a lidar com o computador – já consegue enviar e-mails para a irmã, que mora na Europa. Mesmo sem se dar conta, ela segue a cartilha na qual médicos e cientistas apostam como o melhor tratamento para alcançar a idade avançada com a mente funcionado em alta rotação: nunca aposentar a cabeça.

Zepha tem um aliado importante para essa vivacidade, o marido Paul-Leonard, 91 anos. Companheiro há mais de seis décadas, Paul, ex-marceneiro, não fica para trás. Duas vezes por semana, sai de casa para ir à hidroginástica.

Atravessa a cidade, ida e volta, utilizando quatro ônibus e fazendo mais um percurso a pé para participar da aula com outras oito colegas. Depois de ajudar nas compras, ele dá uma escapadinha para o seu bar predileto, onde mantém uma cadeira cativa e sorve uma cerveja gelada com amigos.

– Não é uma trappist, mas eu gosto – afirma, lembrando das cervejas especiais produzidas por monges da sua Bélgica natal.

O casal Bertels integra a fatia da população que mais cresce no país, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Daqui a 20 anos, o Brasil deverá ter o dobro de pessoas com idade acima de 80 anos. Esse crescimento mobiliza a classe científica para aprofundar os estudos sobre os chamados idosos muito idosos.

Estudos apontam que 40% da população acima de 90 anos vão apresentar problemas de demência. O desafio é fazer com que as pessoas alcancem esse estágio da vida com a mente em ordem.

Para isso, os médicos não apostam em medicamentos ou tratamentos, mas em atividades comuns do cotidiano, como estudar, trabalhar, raciocinar e se relacionar com amigos. Esses elementos servem de combustível para aumentar o que os cientistas denominam de reserva cognitiva – bagagem de aprendizados e experiências que as pessoas acumulam ao longo da vida.

– O treinamento cognitivo protege nossa saúde cerebral, é fator de proteção contra demência e senilidade. As pessoas precisam manter a mente trabalhando. Planejar, organizar, ter um problema para resolver é saudável para o cérebro – aponta o geriatra João Senger.

O exercício cognitivo é uma das grandes armas da medicina para deter o avanço de uma enfermidade sem cura e muito temida:

– Pode levar 20 anos para que os sintomas do Alzheimer apareçam. Com a reserva cognitiva reforçada, as pessoas podem morrer de outra coisa, sem passar pelo o sofrimento dessa doença – afirma Senger.

Além de seguir a cartilha clássica para reduzir o abalo do passar dos anos – alimentação saudável e exercícios físicos -, incluir as práticas cognitivas entre as prioridades se tornou vital. E isso não tem idade para começar. Zepha começou a estudar italiano depois dos 65 anos e, aos 86, digitou as primeiras palavras ao computador.

– Eu nunca fui de ficar em casa, desde jovem eu não parava. Saúde tem de começar desde cedo. A juventude tem de se mexer. A vida é uma só – ensina a octogenária.

Mitos e verdades

Fazer palavras cruzadas é bom para o cérebro

Mito. As cruzadinhas exercitam apenas a parte do cérebro que executa tarefas já aprendidas. Não estimula o planejamento, a organização e outras funções importantes para a saúde mental.

Não parar de trabalhar é prejudicial para a saúde

Mito. O trabalho, quando executado com prazer, é saudável para o cérebro. As funções podem ser alteradas com o passar dos anos. Ao se aposentar, as pessoas devem procurar novas ocupações, que não precisam ser profissionais.

Assistir à TV estimula a mente

Mito. A TV é um importante canal de informação e entretenimento, mas pouco estimula o cérebro. O hábito de ficar muito tempo na frente do aparelho acaba causando a perda das reservas cognitivas.

Ingerir alimentos saudáveis influencia positivamente o cérebro

Verdade. Além de ser um importante fator para manter a saúde do corpo, a alimentação balanceada ajuda no combate à demência e a outras enfermidades cerebrais.

Fonte: Gauchazh Abril

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