Imunoterapia traz novas perspectivas

Os benefícios da utilização da imunoterapia deixaram de ser promessa para se tornarem realidade. Para o tratamento de alguns tumores, como o melanoma e o câncer de pulmão, a imunoterapia já tem mostrado resultados mais contundentes.  “No curto prazo, o benefício tem sido a redução do volume do tumor ou sua estabilização”, explica o oncologista Carlos Henrique dos Anjos, um dos organizadores do II Simpósio Brasileiro de Imuno-Oncologia, promovido pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), nos dias 16 e 17 de setembro, em Brasília. “Entretanto, há pacientes que podem ser considerados potencialmente curados por não apresentarem manifestação da doença há dez anos”, diz ele.

O oncologista cita resultados de estudos clínicos com pacientes com melanoma metastático que utilizaram a segunda geração dos chamados inibidores de checkpoint. “Estamos falando da possibilidade concreta de controle a muito longo prazo para aproximadamente um terço dos pacientes”, afirma o Dr. Carlos Henrique dos Anjos.

Especialista no tratamento do câncer de pulmão, a oncologista Clarissa Baldotto observa que nesse tipo de tumor a imunoterapia não cura, mas aumenta significativamente o período de tempo em que a doença permanece sob controle, prolongando a sobrevida do paciente. “A imunoterapia não funciona para todos, mas quando dá resultados traz menos efeitos colaterais, controla a doença por mais tempo, aumentando a qualidade de vida do paciente”, observa a Dra. Clarissa.

Eficácia contra outros tumores

Uma das principais questões para a medicina hoje é responder se a imunoterapia pode ser aplicada com sucesso em qualquer tumor. “Se o sistema imunológico do corpo pode atacar um tipo de câncer, ele deve ser capaz de combater qualquer um deles. Pelo menos, essa é a teoria. Mas a comprovação da eficácia dos resultados, para além do melanoma, câncer de pulmão e neoplasia renal, ainda aguarda confirmação por meio de evidências clínicas”, destaca o oncologista Neil Segal, do Memorial Sloan Kettering Cancer Center. Segundo o Dr. Segal, existem boas perspectivas de uso desse tipo de medicamento contra o linfoma de Hodgkin, assim como em alguns tumores de cabeça e pescoço e bexiga.

O oncologista Bernardo Garicochea lembra que as drogas desenvolvidas até aqui atuam de duas formas diferentes no fortalecimento do sistema imunológico contra o câncer. “Um grupo está mais voltado para o fortalecimento das células que atacam o tumor, para torná-las mais letais e mais específicas em seu alvo”, explica. “Uma segunda categoria trabalha no ambiente tumoral, derrubando as defesas que as próprias células malignas criaram para impedir que o sistema imune atue contra elas ”, completa.

Efeitos adversos 

A oncologista Clarissa Mathias, que abordou os efeitos adversos da imunoterapia em sua palestra no Simpósio, explica que o tratamento, quando comparado a outros mais convencionais, como a quimioterapia, tem efeitos menos tóxicos, mas bastante particulares. “O fato de se estar estimulando o sistema imune a agir contra o tumor faz com que ele também passe a atuar contra alguns órgãos do corpo, provocando inflamações no intestino, na pele, na hipófise, nos pulmões, entre outros”, diz ela.

A Dra. Clarissa enfatiza ainda a importância de os oncologistas atuarem em estudos conjuntos com outras especialidades, como dermatologia, por exemplo, para tornar mais simples o reconhecimento e o tratamento precoce dos efeitos colaterais decorrentes do uso da imunoterapia.

Indicação

Os oncologistas deixam claro que um número grande de pacientes não responde ao tratamento com imunoterapia. Daí a importância de selecionar bem quem irá receber a medicação para se otimizar os resultados, tendo em vista o seu alto custo. “Tumores com grandes infiltrados linfocitários ou com grande instabilidade genômica têm a tendência de produzirem melhores resultados”, observa o oncogeneticista José Cláudio Casali, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

A tendência, de acordo com o Dr. Casali, é a de se trazer o uso da imunoterapia para fases mais precoces do tratamento. “Hoje esses medicamentos são mais usados na tentativa de reverter a progressão de pacientes que não evoluíram bem nos tratamentos convencionais”, explica. “Estamos trabalhando em biomarcadores que possam ser preditores da resposta de determinado tumor ao uso da imunoterapia”, diz. “O importante é que esse novo tratamento trouxe uma luz no fim do túnel para um grupo de pacientes que não tinha mais nenhuma esperança de cura”, comemora.

Custo-efetividade

No Sistema Único de Saúde (SUS), atualmente somente o medicamento Interferon foi incorporado para tratamento adjuvante do melanoma operado. “As drogas imunoterápicas são incrivelmente caras. O preço sugerido pelos fabricantes é incompatível com a realidade do país. O mercado privado de saúde sofre com isso e o público não tem condições de arcar com esse investimento”, diz o Dr. Gustavo Fernandes, presidente da SBOC.

Para o presidente da SBOC, o caminho para tentar resolver a questão seria os fabricantes darem descontos ao SUS para aquisição dos medicamentos. “A indústria farmacêutica precisa entender sua responsabilidade social de tratar os pacientes”, afirma o Dr. Fernandes. “Mas é preciso clareza no diálogo. O SUS, por exemplo, não enuncia claramente quanto está disposto a pagar para incluir esses medicamentos na sua cobertura e não é possível abrir qualquer tipo de negociação sem isso”, afirma.

O oncologista Nelson Teich observa ainda que o Brasil poderia utilizar ?um ?modelo ?usado em alguns países europeus, por exemplo, para pensar a distribuição da imunoterapia. “?Nesses países, eles controlam o acesso a essas novas drogas por meio do chamado risk sharing. Dessa forma, buscam só pagar o tratamento total para aqueles pacientes que realmente irão se beneficiar dele”, diz. “Infelizmente, ainda falta tecnologia para ?conhecer no momento do início do tratamento quem são esses indivíduos? que terão as melhores respostas e os grandes benefícios clínicos?”, conclui.

Fonte: Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica

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